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Conheça a trajetória de pessoas que foram fundamentais para o desenvolvimento de Carlos Barbosa em uma série de reportagens exclusivas do Jornal Contexto. ----------------------------------------------------- CÉLIA ANSCHAU CHIES Do doce sabor das cucas até a panificação com excelência Texto e foto: Vinícius Mieznikowski Desde muito jovem, Célia sempre teve sua ligação única e devotada para fazer cucas, biscoitos e pães. Não foi somente por trabalho, mas sim pelo amor de sovar a massa, que se transformava no sabor que conquistou a todos. O cheiro do forno aceso, a textura da massa crescendo na tigela, o silêncio das madrugadas em que preparava as fornadas – fizeram a diferença para que se tornasse referência quando o assunto era cucas, item gastronômico que fez a fama de Célia na comunidade. Por onde se anda em Carlos Barbosa e outras cidades da região, é possível encontrar as delícias produzidas por uma mulher que inspirou os filhos a seguirem na missão de fazer criações que encantam pelo sabor. O cheiro da cuca recém-assada, do biscoito amanteigado, das roscas de polvilho ou do pão caseiro ajuda a contar a trajetória de Célia Anschau Chies, 79 anos, que construiu a própria vida no ritmo do forno, uma história de muita entrega pelo trabalho e dedicação para com a família. Natural do interior de Poço das Antas, Célia é filha de Guilherme Alfredo Anschau e Ida Ana Schneider Anschau. Cresceu em uma época em que o mundo era pequeno, delimitado pelas estradas de chão batido, pelos vizinhos distantes e pelas longas caminhadas até a escola. “Nós íamos dois quilômetros e meio a pé pra escola. E não tinha morador. Quando às vezes um bicho gritava, a gente corria de medo”, lembra com um sorriso tímido. Célia é a sexta filha de um total de oito irmãos, criados com rigor e afeto. A ordem familiar era: Imelda (in memoriam), Celestino (in memoriam), Alípio (in memoriam), Arvedo, Jacinto (in memoriam), Célia, Renato e Egon. A irmã mais velha, Imelda, tinha 20 anos a mais e saiu cedo de casa. “Eu estava sozinha no meio dos homens. Não tinha boneca, então brincava de fazer estradinha no meio das árvores”, conta. A rotina em Poços das Antas era de trabalho desde a infância. A família produzia tudo o que consumia: trigo, arroz, farinha de milho, feijão, carne de porco e até salame artesanal. Nada era comprado – exceto, eventualmente, um quilo de açúcar. Não havia luz elétrica, nem geladeira. A carne era conservada na banha ou no sal, e o que não era comido fresco virava charque. A mãe, Ida Ana, trabalhava na roça e deixava a responsabilidade da cozinha para os filhos. “Ela era mais braba que o pai. Quando a gente desobedecia, ela ‘passava o laço’. Mas trabalhava muito, gostava mais da roça do que da cozinha.” Aos 10 ou 12 anos, Célia já cuidava do preparo do almoço. “Era comida simples. Arroz, batata, feijão. Nunca comprávamos alimento, tinha quase tudo lá.” Já o pai, Guilherme Alfredo, era homem de igreja e respeitado na comunidade. Por mais de 35 anos, foi fabriqueiro da igreja de Poço das Antas. Trabalhava na roça, criava animais e era responsável pela produção do salame consumido pela família. “O pai não precisava nunca bater. Só olhava meio atravessado pra gente e tchau. A gente obedecia”, recorda. Célia também carrega na memória a lembrança afetiva dos avós maternos, Luis Schneider e Carolina Weber Schneider. “Me lembro ainda. No último dia de vida do meu avô Luis, ele me segurou no colo. Aí parece que enxergo ainda hoje... tomou um chá na janela, e de repente caiu de costas.” Carolina, a avó, morreu jovem, com 54 anos, após ferir o pé com uma tábua no galinheiro. “Aquilo infeccionou, e nove dias depois ela morreu. Meu pai contava que ela se entregou na cama.” Sobre os avós paternos, Célia diz que não chegou a conhecê-los e sequer lembra os nomes. Desde pequena, Célia sempre teve o hábito de falar apenas em alemão dentro de casa, como era comum em muitas famílias de origem germânica na região. Esse costume, natural e cotidiano, gerou dificuldades quando, ainda criança, ela começou a frequentar a escola. “Fui pra escola sem saber o que era ‘água’ em português”, lembra. O impacto foi imediato: as freiras que davam aula falavam exclusivamente em português, e as crianças, como Célia, pouco entendiam. “A gente não aprendia direito porque elas falavam só português. Era triste”, conta. Aos poucos, com esforço, passou a entender e se comunicar no novo idioma, mas o alemão continuou presente na vida familiar por muitos anos. Na casa dos Anschau, o paladar era moldado por uma simplicidade que atravessava gerações. Uma das lembranças mais marcantes de Célia envolve uma mistura inusitada que hoje surpreende quem ouve, mas era tradição em sua família: o doce de chuchu com melado, preparado por seu pai e consumido junto à comida. “Meu pai fazia sobremesa de chuchu com melado, e comia com a comida”, conta. O hábito de misturar doce e salgado era comum nas colônias de origem germânica. Aos 26 anos, Célia casou-se com Nivaldo Chies (in memória). Eles se conheceram em um Kerb (festa tradicional de colônia alemã), em Poço das Antas. “Ele chegou pra conversar. Falava em alemão. Ele se criou no meio dos alemão.” O casamento levou o casal para Cafundó, zona rural de Carlos Barbosa. “Cafundó é um buraco”, brinca Célia. Lá, nasceram seus quatro filhos: André, Marcelo, Patrícia e Daiane. Hoje, Célia também é avó de dois netos: Mateus e Daniel. A vida em Cafundó foi de muito trabalho. “Eu tinha o André com 14 dias e já ia cortar pasto. Levava os filhos juntos.” A família vendia frutas, produzia leite, fazia queijo, salame, doces, e quase não dependia do comércio para viver. “Ele vendia frutas e a gente fazia tudo em casa. Comprar era só o que não tinha jeito mesmo.” Depois de mais de 13 anos ali, a família mudou-se para Arco Verde, em Carlos Barbosa. Foi lá que nasceu, quase sem querer, o negócio das cucas. A primeira encomenda veio de uma festa de igreja: três cucas. Feitas com dificuldade – sem sovadeira, com um fogão pequeno, poucas formas e panelas emprestadas – as cucas conquistaram os primeiros clientes. “O cara de Porto Alegre provou e disse: isso é cuca de alemoa!” contou Célia. Sem estrutura, Célia improvisou. “O meu cunhado trouxe uma geladeira antiga. Botava panela de água quente dentro pra crescer a massa. Aí aquilo servia de estufa.” Começou com cucas simples. Depois vieram os recheios – coco, chocolate picado, biscoitos de manteiga, merengues, e uma infinidade de produtos criados com técnica e criatividade. “Eu fazia merengue no forno novo e murchava tudo. Depois descobri que tinha que deixar uma frestinha aberta. Aprendi sozinha. Cada um tem que descobrir seu segredo.” Com a produção crescendo, o filho Marcelo sugeriu a mudança para o centro de Carlos Barbosa, em busca de melhores condições. O esposo Nivaldo na época resistiu. Mas Célia sabia que precisava continuar. Atualmente, a Da Célia, tem um espaço próprio, onde atende seus clientes e também faz a sua produção diária de produtos, que são distribuídos em Carlos Barbosa e outras cidades da região, além da venda direta para os clientes no próprio estabelecimento. Mesmo com 79 anos de idade, Célia conta que não consegue ficar longe de onde sempre foi seu lugar. O contato com os alimentos e o atendimento aos clientes fazem parte da sua rotina diária. “Sábado, às três da manhã, estou fazendo rosca. E durante a semana, acordo às quatro e meia. Sempre foi assim.” Faz cacetinhos, roscas de polvilho, bolos, biscoitos de mel e pães. “O cacetinho sou eu que faço. E as roscas ninguém sabe fazer.”

Conheça a trajetória de pessoas que foram fundamentais para o desenvolvimento de Carlos Barbosa em uma série de reportagens exclusivas do Jornal Contexto. ----------------------------------------------------- JOÃO PEDRO GONÇALVES DA SILVA - PEDRÃO Uma vida dedicada à cultura do trabalho Texto e foto: Vinícius Mieznikowski No bairro Ponte Seca, em Carlos Barbosa, há um homem que se tornou sinônimo de confiança, simplicidade e dedicação. João Pedro Gonçalves da Silva, conhecido por todos como Pedrão, é referência na comunidade pela sua trajetória de mais de três décadas à frente de sua lavagem de carros. Aos 60 anos, ele carrega consigo não apenas a experiência de uma vida inteira de trabalho, mas também a memória de uma infância marcada pela roça e pelos valores de humildade e persistência que moldaram sua história. Nascido em uma pequena comunidade no interior da cidade de Progresso, então distrito de Lajeado, viveu até os sete anos uma realidade ligada diretamente ao campo, ajudando o pai e a mãe nas atividades da lavoura. “Eu tenho poucas lembranças daquela época, mas lembro que ia para a roça com o pai e a mãe. Eles viviam praticamente da agricultura, plantavam milho, feijão, essas coisas básicas. Além disso, tinham criação de porcos, galinhas, vaquinhas. O trabalho era feito com junta de bois e carroça. Eu ajudava um pouco, sim, mas não era obrigado. O pai deixava a gente brincar também, embora sempre tivesse alguma tarefa para fazer junto”, recorda. A infância no interior foi breve, mas suficiente para marcar a memória de simplicidade e sacrifício. Seus pais, Artêmio e Vilma, eram agricultores que sustentavam a família com esforço diário. Já os avós paternos, Otacílio Gonçalves da Silva e Arsídia, tiveram mais presença em sua vida, embora a figura do avô tenha se perdido cedo. “Do meu avô eu tenho vaga lembrança, porque ele faleceu cedo. Mas lembro que gostava muito de contar histórias, principalmente da guerra. Dizia que tinha vivido aquele tempo de 37 a 40, e narrava os confrontos que se deram pela região de Marques de Souza. Ele tinha um rádio, e a gente ia lá ouvir os programas. Já a minha avó, dona Arsídia, era tranquila, bem quieta, mas muito querida também. Eu gostava muito de ir à casa deles”, relembra. Com os avós maternos, o vínculo foi menor. Divino Weber e Maria Weber, de origem alemã, não conviveram tanto com Pedrão. Mesmo com lembranças espaçadas, o ambiente rural foi uma verdadeira escola para o pequeno João Pedro. O contato precoce com o trabalho ensinou responsabilidades que moldaram sua juventude. O destino de Pedrão começou a se transformar quando, ainda adolescente, sua família deixou o interior de Progresso e migrou em busca de melhores condições. O pai, Artêmio, havia sido atraído pelas oportunidades no trabalho com a viticultura, especialmente na colheita de uvas. Assim, em meados da década de 1970, os Gonçalves da Silva chegaram à região de Bento Gonçalves e Garibaldi, onde iniciaram uma nova fase de vida. “Em 1977 viemos pra cá. O pai tinha vindo colher uva. Naquele tempo era comum o pessoal buscar famílias inteiras para ajudar nas parreiras. Ele acabou ficando por aqui, trabalhando na viticultura. Nós, como filhos, seguimos junto, cada um ajudando no que podia”, relembra Pedrão. Filho mais velho de sete irmãos – Iraci, Gesi, Adair, Jair, Juraci e Salete –, Pedrão sempre carregou consigo o peso da responsabilidade. “Eu comecei cedo. Ainda antes dos 15 anos já trabalhava de empregado nas colônias. Morava praticamente com os patrões, de segunda a domingo, e só de vez em quando vinha visitar o pai. Trabalhava puxando mangueira nos parreirais, ajudando na roça, onde precisasse. Naquela época a gente não valorizava muito o estudo. Até tinha oportunidade, mas a preocupação maior era trabalhar. Eu mesmo deixei a escola cedo para poder ganhar o pão de cada dia. Não é que eu não gostasse de estudar, mas a necessidade vinha primeiro”, explica. Na segunda metade da década de 1980, a vida de Pedrão tomou um rumo definitivo. Depois de experiências em Garibaldi e Bento Gonçalves, ele fixou residência em Carlos Barbosa, cidade que se tornaria seu lar. O motivo foi pessoal: o casamento com Amélia, companheira de todas as horas. “Eu conheci a Amélia nessa época em que já morava por aqui. Ela sempre trabalhou na Santa Clara, e seguimos juntos desde então. Casamos e viemos morar em Barbosa. Foi aqui que construímos nossa vida, nossa família, e onde seguimos até hoje”, lembra Pedrão, com simplicidade. O primeiro emprego formal na cidade foi na Forjasul, da Tramontina. Pouco tempo depois, já casado, Pedrão passou a trabalhar na cozinha industrial da Santa Clara. A chegada definitiva a Carlos Barbosa, o casamento com Amélia e o nascimento de Ezequiel consolidaram a vida de Pedrão na cidade. Mas o destino ainda reservava a ele o passo mais marcante de sua trajetória: a criação da própria lavagem de carros, no coração do bairro Ponte Seca. Em 1993, uma nova etapa começou na vida de João Pedro Gonçalves da Silva. O sonho antigo de trabalhar por conta própria ganhou forma quando ele e Amélia compraram um terreno no recém-aberto loteamento do bairro Ponte Seca. Naquele espaço vazio, Pedrão ergueu as bases do negócio que o tornaria conhecido por toda a cidade: a Lavagem do Pedrão. “Eu sempre quis trabalhar pra mim, ter meu próprio negócio. Quando abriu o loteamento, comprei o terreno e decidi arriscar. Na época, não havia lavagens por aqui. O pessoal lavava carro em postos de combustível ou em uma ou outra borracharia”, relembra. O início, como era de se esperar, não foi fácil. A estrutura era mínima, o trabalho exigia improviso, e até a técnica para lavar carros foi algo que Pedrão precisou aprender no dia a dia. Um detalhe curioso da trajetória é a origem do apelido que hoje o identifica muito mais do que seu próprio nome. “Esse apelido de Pedrão surgiu lá na Santa Clara, quando eu ainda trabalhava na cozinha industrial e estava abrindo a lavagem. Eu não tinha apelido. Um colega chamado Nadir Sganderla disse: ‘Bota Pedrão’. Nem sei por que ele falou aquilo, mas pegou. Hoje, se tu perguntar por João Pedro, quase ninguém sabe quem é. Todo mundo me conhece como Pedrão”, diverte-se. “Eu não sabia nem como começar a lavar um carro. No começo, montei também uma borracharia junto e chamei uma pessoa que já tinha experiência para me ajudar. Aos poucos fui aprendendo. A Amélia, que trabalhava na Santa Clara, vinha me dar uma mão nos finais de semana. Trabalhávamos até domingo ao meio-dia. Foi bem difícil no começo: a gente lavava caminhão, carreta, tudo o que aparecesse”, recorda. A estrutura cresceu junto com o negócio. Primeiro era apenas um pequeno espaço simples; depois vieram coberturas, melhorias, equipamentos. Pedrão foi adaptando tudo conforme a necessidade, sempre com esforço próprio. “No começo não tinha quase nada, era só o espaço mesmo. Conforme dava, eu ia melhorando. Primeiro a cobertura, depois equipamentos melhores. Era muito difícil comprar as coisas, pagar o terreno, construir”, afirma. Com o passar dos anos, a Lavagem do Pedrão consolidou-se como referência em Carlos Barbosa. De acordo com Pedrão, os clientes gostam não apenas da qualidade do serviço, mas também da forma como são atendidos. “Eu sempre digo que o cliente é como uma árvore que dá fruto. Tu tem que cuidar, preservar, tratar com carinho, porque senão ele não volta”, explica. A rotina da lavagem, no entanto, nunca foi simples. Se no verão o trabalho é intenso pelo movimento, no inverno os desafios são ainda maiores, exigindo resistência contra o frio e as limitações do clima. Sobre a cidade que o acolheu e também o ajudou a realizar os seus sonhos, Pedrão destaca: “Quando vim pra cá, lembro bem: Barbosa tinha uns sete mil habitantes. Era uma cidade pequena, quase uma vila. Todo mundo se conhecia, as coisas eram resolvidas na palavra. Não precisava ir até a loja pra buscar, bastava ligar que o dono mandava entregar. Hoje, claro, está bem diferente, mas eu acho que melhorou. Tem mais opções, mais recursos. Ainda é pequena comparada a outras cidades, mas é muito boa de viver”, observa. E se tem algo que Pedro não esconde de ninguém, acima de tudo, é o orgulho maior de ver o filho único Ezequiel triunfar como piloto de avião comercial. Para Pedrão, esse é o verdadeiro símbolo de vitória em sua jornada. “Eu acompanho as viagens do meu filho por um APP, nesse exato momento ele está pousando em Vitória, no Espírito Santo”, contou orgulhoso.