
Imagem de destaque
Editor Contexto

Imagem de destaque

Conheça a trajetória de pessoas que foram fundamentais para o desenvolvimento de Carlos Barbosa em uma série de reportagens exclusivas do Jornal Contexto. ----------------------------------------------------- JACOB HILÁRIO BENDER Uma vida em vários destinos Jacob Hilário Bender, gosta de ser chamado de Hilário, pois diz que não gosta muito do nome que lhe deram. Esbanja simpatia e disposição para contar a sua história de vida. E quando questionado sobre o segredo de estar com a memória tão afiada, não titubeia ao responder. “Eu li muito, mas li muito durante a minha vida”, contou, saudoso. Aos 93 anos, ele carrega o tempo com a leveza de quem soube observar o mundo sem perder os detalhes. Morador de Carlos Barbosa e testemunha do nascimento e crescimento da cidade, Hilário percorreu os caminhos de São José do Sul e Salvador do Sul antes de fincar raízes definitivas em solo barbosense. Filho de Isabel Eugênia Nonnenmacher e José Bender, recebeu o nome Jacob em homenagem aos dois avôs – ambos também chamados Jacob. “Meu avô materno era Jacob Nonnenmacher e o paterno, Jacob Bender. Meu padrinho também era Jacob. Me deram o nome de Jacob”, conta, bem-humorado. O pai, José, teve filhos de um casamento anterior e não permaneceu ao lado de Isabel. A convivência foi marcada por tensões familiares. Foi a mãe quem criou os filhos, com coragem, disciplina e religiosidade. “Ela era rígida, mas cuidava bem da gente. Criou sozinha, e a gente ajudava como podia.” Isabel lavava roupas no arroio para sustentar a casa – e Hilário, desde pequeno, contribuía. Aos nove anos, já era leiteiro, transportando taras de leite em um burrinho pelas estradas de chão batido de Salvador do Sul. Foi também ali, com Salvador sendo distrito de Montenegro, que Hilário viveu sua infância. Ainda assim, suas memórias afetivas incluem figuras queridas como a avó Catarina Wurlitzer e o avô Jacob Nonnenmacher. “Ele caminhava devagar, sem pressa para nada, era bem camarada. Brincava com a gente quando éramos pequenos.” Aos 19 anos, começou a trabalhar na fábrica dos irmãos Humes, em Salvador do Sul. “Ali eu pregava tamancas e chinelos”, recorda. Mas logo sentiu o chamado por algo maior. Com coragem e um espírito desbravador, seguiu para Carlos Barbosa no início da década de 1950. Era uma cidade ainda pequena, pertencente a Garibaldi, e que começava a se expandir. Hilário foi um dos que ajudaram a construí-la. Seu primeiro emprego em Carlos Barbosa foi na empresa Scomazzon e Companhia, onde fazia de tudo: “Cadeira de vime, marmelada, vela”. O trabalho era variado, e exigia versatilidade. Em seguida, passou pela fábrica Barsé, que produzia chuteiras – e foi ali que conheceu Assunta, sua futura esposa. O casal se encontrou e se conheceu melhor durante uma festa de São João promovida pela Tramontina. Segundo Jacob, os dois voltaram juntos da festa naquela noite e começaram a namorar. Mais tarde, já em sua casa, Hilário e sua família faziam calçados de casa. “Fazíamos mais de uma centena de pares por dia de chuteiras. Tinha técnica, não era qualquer um que fazia aquilo”, diz, orgulhoso. As chuteiras eram para a empresa Clubsul, de Farroupilha. Hilário também foi voz ativa na campanha de emancipação de Carlos Barbosa. Em 1958, quando o então prefeito de Montenegro, Hélio Alves, fez comício contrário à independência do distrito, ele não hesitou em reagir. “O prefeito de Montenegro naquela época, Hélio Alves esteve um dia aqui na comunidade. Ele era contra a emancipação. Veio fazer comício aqui. Mas aí o padre Arlindo botou nós todos num caminhão, fomos para Arcoverde fazer nosso comício a favor da emancipação. Tava lotado!”, conta com entusiasmo. O caminhão era dirigido por Armando Gusso. “Nós queríamos que virasse cidade. Era o que todo mundo queria naquela época”, completa Hilário, orgulhoso. Uma das lembranças mais marcantes de Hilário envolve a movimentação do centro da cidade ao redor da estação de trem, especialmente aos domingos. “Naquele tempo, todos os domingos depois da missa, vinha o trem de Porto Alegre. O povo todo ia para a estação ver o trem chegar. Enchia a plataforma, o pessoal mais olhava do que entrava”, contou. Hilário lembra com carinho das viagens de Maria Fumaça, principalmente para visitar o irmão que morava em São Leopoldo. “Eu viajei muito de Maria Fumaça. Saía daqui pelas três da tarde e chegava às sete da noite”, recorda. Ele descreve os vagões com bancos largos, confortáveis para duas pessoas, e o tempo em que o trem era o principal meio de transporte – inclusive com conexões cuidadosamente sincronizadas entre trens de Porto Alegre, Bento e Caxias. Para ele, era uma época em que o trem fazia a cidade girar, trazendo mercadorias, couro para a fábrica, e também alegria para quem, como ele, gostava de ver a cidade se reunir na estação. O amor pela música surgiu um pouco mais tarde. Já mais velho, mas com uma sede imensa de aprender, comprou um piano e logo se compenetrou em estudar por conta própria – embora também buscasse conhecimento com quem podia ensiná-lo. Hilário não apenas aprendeu os acordes: mas anteriormente já participava do coral da igreja.Aprendendo o piano, passou a cantar e tocar em missas, e encontrou na música um novo sentido de comunidade e espiritualidade. “Comprei um teclado com meu filho em Caxias. Formamos um coral. Eu tocava e cantava.” Chegou a ter aulas com um professor conhecido como Caxambu, de Bento Gonçalves, que o ajudou a aperfeiçoar as técnicas musicais. Foi nesse contexto que se aproximou do padre Francisco Andognini, o padre Chico. Juntos, criaram uma espécie de ‘rádio amadora’, com um pequeno transmissor artesanal feito por Hilário, para transmitir o terço à noite pela igreja. “Eu montei um transmissorzinho. E o padre Chico era meu amigo. Ali, ele ficou sabendo e então instalou aquele aparelhinho. Tanto que a igreja transmitia terço de noite com aquele aparelho. A falecida Nadir Bordini, que na época era agente dos Correios, chegou em mim e me disse assim: ‘Você não pode transmitir as missas assim, você tem que ter licença pra isso para usar esses aparelhos’. E aí recolhemos tudo e guardamos”, recorda, entre o orgulho e a nostalgia. Além da música, desenvolveu com excelência sua veia artística. Inspirado pela avó que bordava, passou a pintar quadros por conta própria. Em sua casa, mantém várias obras espalhadas, feitas com refinada arte e cuidado. Seus temas favoritos vão das paisagens naturais até cavalos correndo em plena liberdade. Hilário tem dentro de sua casa, uma verdadeira exposição e obras artísticas. Hilário guarda em sua memória uma Carlos Barbosa completamente diferente. “Era tudo barro. Tinha só as casas de madeira, uns bares, o trem... Era outra vida.” Lembra de quando na cidade, viu televisão pela primeira vez, na vitrine da loja Demarchi. “Foi no Natal, vi o coral de Porto Alegre cantar o ‘Glória’. Primeira vez que vi televisão.” Foi também o tempo das grandes rivalidades esportivas, principalmente entre os clubes Serrano e Juventus. Hilário lembra bem da briga que deu origem ao Juventus e das discussões de futebol na estação de trem, sempre animadas. “Era uma festa”, diz com risada contida. Mesmo sem envolvimento direto na política, sempre se mostrou atento ao que acontecia. E ao comentar o crescimento da cidade, não esconde o ceticismo bem-humorado: “Está crescendo demais”, diz, rindo. Com Assunta, com quem completa 62 anos de casamento no dia 21 de setembro, compartilha décadas de companheirismo. Dessa união nasceram os filhos Neiva e Tiago. Dos filhos, vieram os netos Gustavo, Gisele, Erik e Darwin – que representam, para Jacob, a continuidade da história. Um dos momentos de maior felicidade do casal, foi quando foram eleitos rei e rainha da terceira idade em Santa Luísa, dançaram em festas, foram homenageados. Hoje, adoentada, Hilário segue ao lado de seu grande amor, cuidando da amada diariamente. “A gente tem muita história para contar. Tenho 93 anos, passei por muita coisa.” afirmou com saudades dos velhos tempos. Uma das grandes paixões de Hilário é o Fusca 1978, que tem guardado em sua casa. Entre as relíquias que preserva com carinho, o Fusca azul se destaca como símbolo de constância, cuidado e apego à sua própria história. “Tenho um Fusca azul. Tá lá, tá inteirinho. Não vendo nem troco. Foi comprado em 78. Já teve gente que quis comprar, mas eu não vendo”, afirma com convicção. Mais do que um carro, o veículo representa uma extensão da própria memória de Hilário – um companheiro silencioso de décadas, estacionado como testemunha do tempo.

Conheça a trajetória de pessoas que foram fundamentais para o desenvolvimento de Carlos Barbosa em uma série de reportagens exclusivas do Jornal Contexto. ----------------------------------------------------- CÉLIA ANSCHAU CHIES Do doce sabor das cucas até a panificação com excelência Texto e foto: Vinícius Mieznikowski Desde muito jovem, Célia sempre teve sua ligação única e devotada para fazer cucas, biscoitos e pães. Não foi somente por trabalho, mas sim pelo amor de sovar a massa, que se transformava no sabor que conquistou a todos. O cheiro do forno aceso, a textura da massa crescendo na tigela, o silêncio das madrugadas em que preparava as fornadas – fizeram a diferença para que se tornasse referência quando o assunto era cucas, item gastronômico que fez a fama de Célia na comunidade. Por onde se anda em Carlos Barbosa e outras cidades da região, é possível encontrar as delícias produzidas por uma mulher que inspirou os filhos a seguirem na missão de fazer criações que encantam pelo sabor. O cheiro da cuca recém-assada, do biscoito amanteigado, das roscas de polvilho ou do pão caseiro ajuda a contar a trajetória de Célia Anschau Chies, 79 anos, que construiu a própria vida no ritmo do forno, uma história de muita entrega pelo trabalho e dedicação para com a família. Natural do interior de Poço das Antas, Célia é filha de Guilherme Alfredo Anschau e Ida Ana Schneider Anschau. Cresceu em uma época em que o mundo era pequeno, delimitado pelas estradas de chão batido, pelos vizinhos distantes e pelas longas caminhadas até a escola. “Nós íamos dois quilômetros e meio a pé pra escola. E não tinha morador. Quando às vezes um bicho gritava, a gente corria de medo”, lembra com um sorriso tímido. Célia é a sexta filha de um total de oito irmãos, criados com rigor e afeto. A ordem familiar era: Imelda (in memoriam), Celestino (in memoriam), Alípio (in memoriam), Arvedo, Jacinto (in memoriam), Célia, Renato e Egon. A irmã mais velha, Imelda, tinha 20 anos a mais e saiu cedo de casa. “Eu estava sozinha no meio dos homens. Não tinha boneca, então brincava de fazer estradinha no meio das árvores”, conta. A rotina em Poços das Antas era de trabalho desde a infância. A família produzia tudo o que consumia: trigo, arroz, farinha de milho, feijão, carne de porco e até salame artesanal. Nada era comprado – exceto, eventualmente, um quilo de açúcar. Não havia luz elétrica, nem geladeira. A carne era conservada na banha ou no sal, e o que não era comido fresco virava charque. A mãe, Ida Ana, trabalhava na roça e deixava a responsabilidade da cozinha para os filhos. “Ela era mais braba que o pai. Quando a gente desobedecia, ela ‘passava o laço’. Mas trabalhava muito, gostava mais da roça do que da cozinha.” Aos 10 ou 12 anos, Célia já cuidava do preparo do almoço. “Era comida simples. Arroz, batata, feijão. Nunca comprávamos alimento, tinha quase tudo lá.” Já o pai, Guilherme Alfredo, era homem de igreja e respeitado na comunidade. Por mais de 35 anos, foi fabriqueiro da igreja de Poço das Antas. Trabalhava na roça, criava animais e era responsável pela produção do salame consumido pela família. “O pai não precisava nunca bater. Só olhava meio atravessado pra gente e tchau. A gente obedecia”, recorda. Célia também carrega na memória a lembrança afetiva dos avós maternos, Luis Schneider e Carolina Weber Schneider. “Me lembro ainda. No último dia de vida do meu avô Luis, ele me segurou no colo. Aí parece que enxergo ainda hoje... tomou um chá na janela, e de repente caiu de costas.” Carolina, a avó, morreu jovem, com 54 anos, após ferir o pé com uma tábua no galinheiro. “Aquilo infeccionou, e nove dias depois ela morreu. Meu pai contava que ela se entregou na cama.” Sobre os avós paternos, Célia diz que não chegou a conhecê-los e sequer lembra os nomes. Desde pequena, Célia sempre teve o hábito de falar apenas em alemão dentro de casa, como era comum em muitas famílias de origem germânica na região. Esse costume, natural e cotidiano, gerou dificuldades quando, ainda criança, ela começou a frequentar a escola. “Fui pra escola sem saber o que era ‘água’ em português”, lembra. O impacto foi imediato: as freiras que davam aula falavam exclusivamente em português, e as crianças, como Célia, pouco entendiam. “A gente não aprendia direito porque elas falavam só português. Era triste”, conta. Aos poucos, com esforço, passou a entender e se comunicar no novo idioma, mas o alemão continuou presente na vida familiar por muitos anos. Na casa dos Anschau, o paladar era moldado por uma simplicidade que atravessava gerações. Uma das lembranças mais marcantes de Célia envolve uma mistura inusitada que hoje surpreende quem ouve, mas era tradição em sua família: o doce de chuchu com melado, preparado por seu pai e consumido junto à comida. “Meu pai fazia sobremesa de chuchu com melado, e comia com a comida”, conta. O hábito de misturar doce e salgado era comum nas colônias de origem germânica. Aos 26 anos, Célia casou-se com Nivaldo Chies (in memória). Eles se conheceram em um Kerb (festa tradicional de colônia alemã), em Poço das Antas. “Ele chegou pra conversar. Falava em alemão. Ele se criou no meio dos alemão.” O casamento levou o casal para Cafundó, zona rural de Carlos Barbosa. “Cafundó é um buraco”, brinca Célia. Lá, nasceram seus quatro filhos: André, Marcelo, Patrícia e Daiane. Hoje, Célia também é avó de dois netos: Mateus e Daniel. A vida em Cafundó foi de muito trabalho. “Eu tinha o André com 14 dias e já ia cortar pasto. Levava os filhos juntos.” A família vendia frutas, produzia leite, fazia queijo, salame, doces, e quase não dependia do comércio para viver. “Ele vendia frutas e a gente fazia tudo em casa. Comprar era só o que não tinha jeito mesmo.” Depois de mais de 13 anos ali, a família mudou-se para Arco Verde, em Carlos Barbosa. Foi lá que nasceu, quase sem querer, o negócio das cucas. A primeira encomenda veio de uma festa de igreja: três cucas. Feitas com dificuldade – sem sovadeira, com um fogão pequeno, poucas formas e panelas emprestadas – as cucas conquistaram os primeiros clientes. “O cara de Porto Alegre provou e disse: isso é cuca de alemoa!” contou Célia. Sem estrutura, Célia improvisou. “O meu cunhado trouxe uma geladeira antiga. Botava panela de água quente dentro pra crescer a massa. Aí aquilo servia de estufa.” Começou com cucas simples. Depois vieram os recheios – coco, chocolate picado, biscoitos de manteiga, merengues, e uma infinidade de produtos criados com técnica e criatividade. “Eu fazia merengue no forno novo e murchava tudo. Depois descobri que tinha que deixar uma frestinha aberta. Aprendi sozinha. Cada um tem que descobrir seu segredo.” Com a produção crescendo, o filho Marcelo sugeriu a mudança para o centro de Carlos Barbosa, em busca de melhores condições. O esposo Nivaldo na época resistiu. Mas Célia sabia que precisava continuar. Atualmente, a Da Célia, tem um espaço próprio, onde atende seus clientes e também faz a sua produção diária de produtos, que são distribuídos em Carlos Barbosa e outras cidades da região, além da venda direta para os clientes no próprio estabelecimento. Mesmo com 79 anos de idade, Célia conta que não consegue ficar longe de onde sempre foi seu lugar. O contato com os alimentos e o atendimento aos clientes fazem parte da sua rotina diária. “Sábado, às três da manhã, estou fazendo rosca. E durante a semana, acordo às quatro e meia. Sempre foi assim.” Faz cacetinhos, roscas de polvilho, bolos, biscoitos de mel e pães. “O cacetinho sou eu que faço. E as roscas ninguém sabe fazer.”